TIPOS DE MEDITAÇÃO


Leia as respostas a algumas das dúvidas mais frequentes.

Uma das dúvidas mais frequentes que tenho testemunhado no contacto com muitas centenas de praticantes de meditação relaciona-se com a categorização das práticas meditativas. Neste artigo encontrará uma tipologia proposta pela ciência, procurando-se também integrar estas categorias com as práticas Budistas. Serão mencionados diferentes tipos de meditação comummente praticados, procurando-se uma sistematização em três grandes categorias.

Categorização das práticas meditativas

Tipos de Meditação

A Meditação

Existem diferentes tipos de meditação amplamente praticados actualmente. A maioria tem origens antigas, provenientes de tradições espirituais orientais.

Apesar das aparências o ato de meditar é mais do que simplesmente ficar em silêncio por um período de tempo. É o começo de uma jornada em direção às profundezas do seu coração e da sua mente. É através da exploração destas camadas mais profundas que podemos explorar os nossos verdadeiros desejos e desenvolver uma compreensão de quem somos e que competências e “dádivas” podemos trazer ao mundo.
Podemos encontrar alguns tipos de meditação como:

  • Meditação "Espiritual"
  • Meditação Mindfulness
  • Meditação Zen
  • Meditação na Concentração
  • Meditação em Movimento
  • Meditação Baseada em Mantras
  • Meditação Transcendental
  • ....
Esta diversidade poderá criar alguma confusão, sendo relevante sabermos os pontos em comum.



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Categorização das práticas meditativas

primeira abordagem científica

Numa primeira abordagem científica à sistematização das categorias de meditação, Davidson e Goleman (1977) criaram uma classificação onde as práticas de meditação podiam ser divididas em:
1. Concentração e;
2. Consciência (awareness).

Posteriormente, Lutz, Slagter, Dunne & Davidson (2008) propuseram a seguinte estrutrura:
1.Atenção-Focada (AF) e;
2.Monitorização Aberta (MA) ou Consciência sem Objeto.

As Práticas Atenção-Focada são baseadas na focalização da atenção num determinado objecto externo, corporal ou mental, ignorando todos os estímulos irrelevantes. Exige o foco voluntário da atenção num objeto escolhido
Pelo contrário, as técnicas de Monitorização Aberta tentam ampliar o foco de atenção para todas as sensações recebidas, sons, emoções e pensamentos, de momento a momento, sem nos focarmos particularmente em qualquer um dos eles (Lutz, Slagter, Dunne, & Davidson, 2008). Trata-se de cultivar uma consciência aberta, mas não reativa, ao conteúdo da nossa experiência, momento a momento.
Todas as categorias supra-mencionadas (e outras) podem ser incluídas nestas duas grandes eixos: Atenção-Focada e Monitorização Aberta.

Diferentes tradições de meditação podem ser colocadas num contínuo entre estes dois pólos (Andersen, 2000; Wallace, 1999), e a maioria delas usam os dois tipos de práticas complementarmente.



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Tipologia Budista

Qual é a relação desta tipologia com as práticas Budistas?

Estas duas formas de meditação, a Atenção Focada e a Monitorização Aberta, correspondem a dois tipos de meditação preconizados pelo Budismo há mais de 2500 anos e denominados: Samatha, que significa calma ou tranquilidade. É uma meditação essencialmente baseada na concentração e corresponde à Atenção Focada.
e 2. Vipassana/Insight, que significa visão penetrante, ver 'para além'. Corresponde à Monitorização Aberta.

  • 1. Na prática de Samatha, onde se procura focalizar a atenção num único objeto ou suporte. Por exemplo, a respiração, a chama de uma vela ou um mantra, embora qualquer suporte possa ser utilizado. É um aspeto do treino que leva à calma e à concentração. Um dos objetos de focalização muito comum é a respiração. Durante a prática, quando a atenção começa a divagar é propositadamente trazida de volta para o objecto de foco, para o suporte. Com o tempo de prática, este onepointedness ou a capacidade de concentração unifocada no objecto, sem distração, será cada vez maior. O progresso é feito quando o praticante torna-se menos vulnerável, quer às distracções exteriores, tais como sons, bem como às distracções interiores, incluindo pensamentos, emoções ou sensações.

  • 2. Na prática de Vipassana procura-se desenvolver 'sabedoria', o conhecer a verdadeira natureza dos fenómenos e por isso também se denomina de meditação de insight. A sua ferramenta básica é a prática de mindfulness, que tem sido traduzida para o Português como “Atenção Plena”. Pode ser perspetivada como uma prática baseada na experiência do momento presente, numa atitude aberta, curiosa, não-julgadora e de aceitação. Então Vipassana é insight, no sentido de uma visão profunda e é mindfulness, no sentido de atenção extraordinária ancorada no momento presente.



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Uma terceira categoria

Vipassana distingue-se de Samatha uma vez que em Vipassana o praticante concentra a sua consciência no momento presente, em vez de se concentrar num estímulo em particular. Não há rigidez da atenção num único estímulo. É, também, possível praticar mindfulness ao longo do dia, durante a execução das tarefas quotidianas, tais como comer, dirigir, lavar a louça, etc...

Pode-se ainda considerar uma terceira categoria:

3. Meditação na Compaixão e na Bondade
Embora algo distintas, estas formas de meditação podem ser consideradas da mesma 'família', cultivando atitudes e sentimentos de bondade ilimitados e de compaixão para com os outros, sejam eles parentes próximos, estranhos ou mesmo inimigos. Estas práticas implicam estar consciente das necessidades da outra pessoa e experimentar um desejo sincero e compassivo de ajudar essa pessoa e/ou aliviar o seu sofrimento. Gerar um estado compassivo envolve, por vezes, que o meditador sinta o que a outra pessoa está a sentir. Mas isto não é suficiente, a meditação deverá ser conduzida por um desejo não egoísta de de ajudar quem está em sofrimento.

Estas formas de meditação no amor incondicional e na compaixão provaram ser mais do que apenas exercícios espirituais. Demonstrou-se já que possuem o potencial benéfico em Profissionais da área da saúde, professores e outras pessoas que correm o risco de esgotamento emocional (burnout).

O praticante começa por focar um sentimento incondicional de benevolência e de amor pelos outros e por si próprio, acompanhado pela repetição silenciosa de uma frase que transmite a intenção, como por exemplo: "Que todos os seres encontrem a felicidade e as causas da felicidade e que sejam livres de sofrimento e das causas do sofrimento". Estes tipos de meditação são fundamentais para o budismo, e são cada vez mais praticados regularmente.





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Consciência, Equilíbrio, Bem-Estar

Resumindo

A Atenção Focada / Samatha e a Monitorização Aberta / Vipassana são duas 'faces da mesma moeda'. AF/Samatha dirige o poder da concentração. A concentração fornece a base através da qual MA/Vipassana pode penetrar num nível mais profundo da mente. Estas duas formas de meditação devem ser cultivadas em conjunto numa proporção equilibrada. Demasiada consciência sem calma para equilibrá-la irá resultar num estado fortemente sensibilizado. Muita concentração sem uma relação de equilíbrio de consciência poderá resultar em demasiado torpor ou sedação. Ambos devem ser evitados.


A meditação Samatha tem o potencial de levar ao evitamento, pois geralmente procura estados elevados de concentração que são impossíveis quando o foco é a realidade última. O ponto é que só se pode entender a realidade se a considerar como foco; se você não conseguir chegar a um acordo com a realidade, preferirá evitá-la porque é desconfortável, preferindo uma ilusão única, estável, satisfatória e controlável à dura realidade do universo. Essa é uma diferença potencial entre os dois tipos de meditação.
Além da diferença no objeto de meditação, a meditação MA / Vispassana também obviamente terá resultados diferentes- será menos tranquila como um todo, pois iremos experimentar todos os problemas inerentes à realidade, especificamente que ela é impermanente, insatisfatória e incontrolável.

Finalmente, de acordo com a tradição contemplativa budista a meditação na Compaixão e Bondade/Amor Ilimitados não conduz à angústia e/ou ao desânimo, mas reforçam um equilíbrio interior, uma resiliência mental, e cultivam uma corajosa determinação para desejar o bem a tudo e a todos e a ajudar genuinamente aqueles que sofrem, incluindo a nós próprios.




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Bibliografia

Bibliografia

  • Andersen, J. (2000). Meditation meets behavioural medicine: The story of experimental research on meditation. Journal of Consciousness Studies, 7, 17–73.
  • Davidson, R. J., & Goleman, D. J. (1977). The role of attention in meditation and hypnosis: A psychobiological perspective on transformations of consciousness. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 25, 291–308.
  • Lutz, A., Slagter, H. A., Dunne, J. D., & Davidson, R. (2008). Attention regulation and monitoring in meditation. Trends in Cognitive Sciences, 12, 163–169.
  • Wallace, B. A. (1999). The Buddhist tradition of Samatha: Methods for refining and examining consciousness. Journal of Consciousness Studies, 6, 175–187.



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